Mais jogos, mais polêmica: os altos e baixos da maior Copa do Mundo de todos os tempos
Resumo breve
A Copa do Mundo de 2026, com 48 seleções e 104 partidas, foi a maior da história, mas gerou controvérsias sobre diluição da qualidade, pausas para hidratação, preços de ingressos e interferência política.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, prometeu que a Copa do Mundo de 2026 seria "o maior evento da história da humanidade". Ele comparou o torneio realizado nos Estados Unidos, México e Canadá a 104 Super Bowls em um mês. Era uma afirmação ousada. Mas será que se concretizou?
Pela primeira vez, a Copa do Mundo contou com 48 seleções, com Curaçao, Cabo Verde, Jordânia e Uzbequistão fazendo suas estreias. No entanto, será que isso diluiu a qualidade do torneio? Além disso, as pausas obrigatórias de três minutos para hidratação, independentemente das condições climáticas, permitiram que as emissoras lucrassem com comerciais. Os preços elevados dos ingressos geraram grande controvérsia, mas será que afastaram os torcedores?
A politização da Copa do Mundo começou antes mesmo do torneio, com questões de visto e a participação do Irã, e depois o presidente dos EUA, Donald Trump, interveio para anular o cartão vermelho de Florian Balogun. Pierluigi Collina, chefe de arbitragem da Fifa, declarou guerra à perda de tempo e implementou uma série de mudanças nas regras. Mas isso fez diferença real? Esta é a história da Copa do Mundo.
A expansão da Copa valeu a pena?
Se o objetivo era ter grandes histórias e colorido, a fase de grupos foi um sucesso. Ver estreantes sempre faz parte do encanto de uma Copa do Mundo, e Cabo Verde trouxe isso em abundância. Um pequeno arquipélago no Oceano Atlântico com apenas 530 mil habitantes, Cabo Verde conseguiu empates incríveis contra Espanha e Uruguai (e também contra a Arábia Saudita) para terminar em segundo lugar no grupo. Curaçao, apesar da goleada de 7 a 1 sofrida para a Alemanha, conquistou um ponto surpreendente contra o Equador. E a República Democrática do Congo empatou com Portugal e avançou de fase.
Sem essas histórias, a fase de grupos teria sido bastante monótona, com as grandes seleções passando com facilidade. Setenta e duas partidas – mais jogos do que uma Copa do Mundo inteira costumava ter – para eliminar apenas 16 seleções. A situação foi agravada pelo fato de a Fifa ter usado o confronto direto como primeiro critério de desempate, em vez do saldo de gols. Com oito terceiros colocados avançando, Austrália-Paraguai e Áustria-Argélia sabiam que poderiam empatar entre si e ambos avançariam. E foi o que fizeram.
A emoção só começou de fato nas fases eliminatórias, com Cabo Verde levando a Argentina à prorrogação antes de perder por 3 a 2. Isso significou que a nação africana evitou a derrota no tempo regulamentar contra ambas as finalistas da Copa. Sem o torneio expandido, Cabo Verde não estaria nesta Copa, e a história de Vozinha, o goleiro de 40 anos que inspirou a estreia histórica do país, não teria sido contada.
Como o novo sistema de cabeças de chave influenciou a final
Novo torneio, novo sistema de cabeças de chave. A Fifa queria evitar que as quatro seleções mais bem ranqueadas se enfrentassem cedo nas fases eliminatórias. Por isso, deu a Argentina, Inglaterra, França e Espanha um status especial para serem sorteadas em quartos separados do chaveamento. Sem essa regra, elas poderiam se enfrentar já nas oitavas de final. No fim, elas caíram em grupos que as mantiveram separadas até as semifinais, de qualquer forma. A regra não teve influência real sobre as quatro primeiras colocadas do ranking chegarem às semifinais pela primeira vez.
Com um detalhe: a Fifa queria que os países ranqueados em primeiro e segundo, Argentina e Espanha, só pudessem se encontrar na final, como em um sorteio de torneio de tênis. Para isso, a Fifa teve que trocar a Argentina para o Grupo J e colocar a França no Grupo I. Qual foi a diferença? Sem a troca, a Inglaterra teria enfrentado a França nas semifinais, e a Argentina teria enfrentado a Espanha. Uma final Argentina-Espanha não teria sido possível.
Pausas para hidratação: a mina de ouro que não vai embora
As pausas para hidratação, segundo a Fifa, foram introduzidas para beneficiar o bem-estar dos jogadores, e a integridade esportiva exigia que fossem usadas igualmente em todas as partidas, mesmo nos estádios com ar-condicionado de Atlanta, Dallas, Houston e Vancouver. As emissoras de TV fora do Reino Unido aproveitavam para veicular comerciais, que podiam começar 20 segundos após o apito do árbitro e deviam terminar 30 segundos antes da retomada do jogo. À medida que o torneio avançava, as vaias dos torcedores aumentavam, tamanha a frustração com as paradas.
Especialistas disseram à BBC Sport que um anúncio de 30 segundos na Fox Sports nos EUA custa entre US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão) e US$ 300 mil (R$ 1,5 milhão), subindo para US$ 750 mil (R$ 3,8 milhões) durante partidas dos EUA e nas fases finais. As pausas funcionavam como tempos técnicos, com os treinadores usando dispositivos para passar instruções táticas aos jogadores. O curso de várias partidas foi alterado.
Será que veremos essas pausas em outras ligas? A Uefa já descartou a ideia, e é difícil imaginá-las sendo aceitas nas principais ligas europeias. Mas não seria surpresa vê-las de volta na próxima Copa do Mundo.
As leis de Collina contra a perda de tempo funcionaram?
A prioridade de Collina nesta Copa era melhorar o ritmo dos jogos. O italiano queria que seus árbitros garantissem que os jogadores fossem mais rápidos em laterais, tiros de meta e substituições. Ele também queria impedir que jogadores simulassem lesões para causar atrasos. Funcionou?
Na Copa de 2022, Collina adicionou tempo para absolutamente tudo, resultando em uma duração média de partida de 101 minutos e 22 segundos, com 58 minutos e 3 segundos de bola rolando. Nesta Copa, excluindo o tempo perdido com pausas para hidratação, a duração média foi de 96 minutos e 24 segundos, com 58 minutos e 15 segundos de bola rolando. Um pouco mais de ação, mas muito menos tempo necessário para alcançá-la. Em 2022, a bola rolou por 57,4% do tempo de jogo; este ano, foi 60,4%. Foi um sucesso em dois aspectos: o jogo flui melhor, causa menos frustração nos torcedores com a conduta dos jogadores, e eles têm mais futebol. Resta ver como isso funcionará no futebol doméstico na próxima temporada, já que as regras também se aplicarão lá.
A afirmação ousada de Infantino sobre o público
Com preços de ingressos nas alturas, havia a sensação de que muitos jogos da Copa teriam arquibancadas vazias. Isso não se concretizou. Após as quartas de final, a Fifa anunciou que os estádios operaram com capacidade quase total, 99,7%, com um recorde de 6.527.410 torcedores presentes. Parece que as pessoas estavam dispostas a pagar os preços da Fifa. A entidade ainda arrecadou mais dinheiro com sua plataforma de revenda secundária, na qual adicionava 30% de taxas a cada venda.
Isso não significa que não houve controvérsia. A Fifa foi intimada pelos procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey como parte de uma investigação sobre preços de ingressos, práticas e precisão das localizações dos assentos. Inicialmente, os torcedores foram proibidos de levar garrafas de água aos estádios, até que a Fifa foi forçada a recuar. Além disso, o alto custo do transporte para chegar aos jogos em Nova Jersey e Boston também teve que ser reduzido após reação negativa.
Politização da Copa do Mundo
A Copa de 2026 pareceu politizada desde o início, com torcedores de várias nações impossibilitados de entrar no país devido às restrições de viagem impostas pelos EUA. A história teve uma reviravolta inesperada antes mesmo do início do torneio, quando o árbitro somali Omar Artan teve a entrada negada no Aeroporto de Miami. Isso levou a uma entrevista coletiva desconfortável para Infantino, na qual ele disse que as pessoas deveriam "relaxar".
O Irã enfrentou obstáculos durante todo o torneio, com o governo dos EUA permitindo que a equipe entrasse no país apenas por 24 horas em cada uma de suas três partidas. Markwayne Mullin, chefe de segurança interna dos EUA, disse que "dançou uma dança feliz" quando o Irã foi eliminado. Talvez a maior controvérsia política tenha ocorrido quando Trump ligou para Infantino para tentar anular a suspensão de Balogun. Um membro do comitê disciplinar da Fifa, Mohammad al-Kamali, tomou então uma decisão inédita em uma Copa do Mundo: em vez de perder automaticamente o jogo das oitavas de final contra a Bélgica, a suspensão de Balogun foi suspensa por 12 meses. Balogun jogou contra a Bélgica, mas uma Bélgica motivada goleou os anfitriões por 4 a 1. Isso levantou sérias questões sobre interferência política no torneio.
Como funcionou o VAR?
Durante a fase de grupos, o árbitro assistente de vídeo (VAR) pareceu funcionar bem. Mas as fases eliminatórias trouxeram muitas inconsistências. Raramente houve muita controvérsia com o VAR em Copas anteriores. A Associação Egípcia de Futebol (EFA) pediu uma investigação após a derrota por 3 a 2 para a Argentina, na qual um gol do Egito foi anulado após revisão do VAR. Muitos outros treinadores também reclamaram do padrão da arbitragem. Quanto mais jogos, mais oficiais de vídeo são usados, e mais difícil é manter a consistência.
Houve 37 intervenções do VAR até agora nesta Copa, uma frequência de 0,36 por jogo, praticamente igual aos 0,37 do Catar. É maior que os 0,29 da Premier League. Em intervenções subjetivas, quando o árbitro vai ao monitor, esta Copa teve uma frequência de 0,27 por partida – a Premier League tem quase a metade, 0,15. Então por que parece melhor na Copa? Velocidade. É o maior problema que o jogo enfrenta com a revisão de vídeo no futebol doméstico, mas, tirando algumas situações, as decisões foram tomadas com muita rapidez.
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