'Maternidade não deve ser o fim da história de ninguém'

Resumo breve
A meio-campista nigeriana Ngozi Okobi-Okeoghene critica torcedores que desencorajam jogadoras a se casarem e terem filhos. Convocada após quatro anos de ausência, ela defende que a maternidade não encerra carreiras e pede mais apoio às mulheres no futebol.
Às vésperas da Copa Africana de Nações Feminina (Wafcon), uma das jogadoras de futebol mais condecoradas da Nigéria criticou as atitudes no país da África Ocidental, apontando o dedo para torcedores que fazem as atletas se sentirem mal por se tornarem mães e esposas.
Ngozi Okobi-Okeoghene foi reconvocada pelas atuais campeãs no início deste ano, após quatro anos de ausência, depois do nascimento de seu filho em 2024. A jogadora de 32 anos participou da preparação das Super Falcons para a Wafcon, mas sua presença no elenco foi criticada por alguns.
"Os nigerianos, a maioria dos torcedores, acham que quando uma mulher é casada, ela é velha", disse Okobi-Okeoghene à BBC Sport Africa. "Quando uma mulher dá à luz, ela é velha, não tem força para fazer o que faz."
A meio-campista, tetracampeã da Wafcon com 75 partidas pela seleção, acredita que essas visões negativas estão até afetando as escolhas de vida de suas companheiras de equipe. "Eles continuam nos fazendo sentir mal por nós mesmas", afirmou. "A maioria das meninas tem muito medo de se casar. Elas acham que, quando se casarem, não serão mais convocadas para a seleção."
"Ser jogadora de futebol não me impede de ser esposa. Não me impede de ser uma mulher de carreira, uma atleta", acrescentou. "Vejo tantos comentários no Instagram, nas redes sociais em geral. Esses comentários me motivam, porque veem as mulheres como lixo neste país — e isso é ruim."
Suas experiências desde o parto a levaram a se manifestar. "Só quero deixar uma declaração por causa de como as mulheres são tratadas, especialmente na Nigéria. Precisamos encorajar nossas mulheres. Precisamos fazê-las entender que elas podem fazer mais. A maternidade não deve ser o fim da história de ninguém."
Enfrentando estereótipos sobre maternidade
Para muitas jogadoras de futebol na África, ter um filho ainda pode parecer o início de um futuro incerto, em vez de um novo capítulo na vida. Embora a maternidade tenha trazido alegria para Okobi-Okeoghene, também representou o desafio físico e emocional de reconstruir sua carreira. Ela voltou a treinar cinco meses após anunciar o nascimento de seu filho.
"Um filho é um presente de Deus", disse. "Foi difícil e uma luta para me recuperar, o que realmente levou muito tempo. Minhas companheiras de equipe me ajudaram a me impulsionar, especialmente no início. Não tirou a habilidade em mim, só tirou meu condicionamento físico."
Okobi-Okeoghene ficou surpresa — e encantada — ao ser reconvocada para a seleção nigeriana pelo técnico Justin Madugu para amistosos contra Camarões em fevereiro e março, e depois contra Senegal em junho. Ela não foi selecionada para a equipe final da Wafcon 2026 em Marrocos, onde a Nigéria busca conquistar um 11º título recorde, mas descreveu seu tempo com a equipe como "um privilégio". "Sempre amo representar meu país em qualquer dia, a qualquer hora. Venha chuva, venha sol, continuarei apoiando a equipe porque é minha equipe. Não sou uma estranha."
A Nigéria enfrenta Zâmbia, Egito e as estreantes Malawi no Grupo C da fase final, que será realizada de 26 de julho a 16 de agosto. Todas as quatro semifinalistas se classificarão para a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, no Brasil.
Retorno após o parto
A FIFA, órgão máximo do futebol mundial, introduziu um quadro regulatório para a proteção de jogadoras e treinadoras nos últimos anos, garantindo licença-maternidade remunerada e salvaguardas contra discriminação. Algumas ligas na Europa, Estados Unidos e Austrália foram ainda mais longe, oferecendo licença estendida, apoio à creche e garantia de retorno às competições. No entanto, a implementação continua desigual, especialmente em muitas partes da África, onde o futebol feminino muitas vezes carece das estruturas profissionais necessárias para fazer cumprir tais proteções.
Recordando seu tempo jogando na Suécia, Okobi-Okeoghene apontou uma companheira de equipe que continuou treinando enquanto grávida. "Isso a ajudou a voltar forte e saudável, como se nada tivesse acontecido", disse. A diferença, sugere Okobi-Okeoghene, é o sistema cultural que impõe certas limitações às atletas femininas.
'Ele precisa me ver jogar'
Okobi-Okeoghene credita sua família por desempenhar um papel vital em seu retorno. "Uma coisa pela qual sou muito grata é que tenho um marido e uma família que me apoiam", revelou. "Às vezes fico tão cansada. Depois do treino, ele (seu marido) está lá para mim. Ele quer que eu faça o que amo. Ele não queria que eu parasse minha carreira porque dei à luz."
Seu filho também se tornou uma fonte de inspiração. "Todos os dias acordo e vejo meu filho, isso me motiva a fazer mais. Me faz querer ir ao campo e trabalhar duro, porque preciso que ele me veja jogar futebol. Ele já está correndo com a bola, então precisa aprender um pouco comigo."
A assistente técnica da Nigéria, Ann Chiejine, ex-goleira que também se tornou mãe durante sua carreira, concorda que as jogadoras não devem ter que escolher entre constituir família e o esporte. "Sem Deus e [uma] família [que apoie], será muito difícil", disse Chiejine. "Você tem que planejar, sabendo quando quer engravidar e quando começar seu treinamento."
Enquanto os torcedores se preparam para torcer pela tentativa das Super Falcons de manter o título da Wafcon, Okobi-Okeoghene tem uma mensagem para os homens na Nigéria. "Você tem que apoiar sua esposa. Não importa o quanto ela precise, por favor, dê a elas. Porque vocês são os únicos que podem realmente nos fazer fazer o que amamos e também nos fazer sentir satisfeitas com o que queríamos na vida."
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