Por que há tão poucas jogadoras africanas na WSL?
Resumo breve
Apesar do talento exibido na Copa Africana de Nações Feminina, apenas quatro jogadoras africanas atuam na WSL.
A Women's Super League (WSL) é amplamente considerada uma das melhores ligas do mundo, atraindo os principais talentos da Europa e de outros continentes. No entanto, a presença de jogadoras africanas na liga inglesa é surpreendentemente baixa: apenas quatro atletas do continente atuam atualmente na WSL — Chiamaka Nnadozie (Brighton e Nigéria), Aisha Masaka (Brighton e Tanzânia), Rofiat Imuran (London City Lionesses e Nigéria) e Ines Belloumou (West Ham e Argélia).
Enquanto isso, a Copa Africana de Nações Feminina (Wafcon) deste mês, vencida por Camarões, evidenciou a riqueza de talento do continente, com jogadoras como a goleira Michaely Bihina, eleita a melhor jogadora do torneio, e a atacante malauiana Tabitha Chawinga, que liderou sua seleção até a final. Apesar disso, a WSL parece não ser o destino preferido das estrelas africanas, que têm encontrado oportunidades mais atrativas em outras ligas, especialmente na National Women's Soccer League (NWSL) dos Estados Unidos.
O talento africano em destaque no cenário global
A escassez de jogadoras africanas na WSL não reflete falta de qualidade. Pelo contrário, as principais estrelas do continente têm se destacado em ligas de alto nível, especialmente na NWSL, onde clubes americanos investem pesado em contratações. A zambiana Racheal Kundananji tornou-se, em 2024, a jogadora mais cara da história do futebol feminino ao se transferir do Madrid CFF para o Bay FC por £685.000. Sua compatriota Barbra Banda, que atua no Orlando Pride, foi eleita a Jogadora do Ano da BBC em 2024.
Camarões, que conquistou seu primeiro título da Wafcon ao derrotar Malawi na final, tem representantes de peso no futebol mundial. Monique Ngock, eleita a melhor jogadora do torneio, atua no Washington Spirit, clube que conta com seis internacionais africanas. Já a goleira Michaely Bihina, destaque da seleção camaronense, defende o Benfica, de Portugal.
As irmãs Chawinga, do Malawi, também brilham. Temwa Chawinga, do Kansas City Current, venceu a Chuteira de Ouro e o prêmio de MVP da NWSL em suas duas primeiras temporadas. Sua irmã mais velha, Tabitha, capitã do Malawi, atua no Lyon, um dos gigantes europeus, e foi peça-chave na campanha histórica de sua seleção, que garantiu vaga inédita na Copa do Mundo Feminina de 2027.
Na WSL, a nigeriana Chiamaka Nnadozie, goleira do Brighton, tornou-se a primeira africana a ser indicada ao Ballon d'Or feminino. Sua contratação, em 2024, foi um marco, e ela encerrou a temporada com uma final de FA Cup em Wembley contra o Manchester City, campeão da liga.
Barreiras para a entrada de africanas na WSL
Um dos principais obstáculos para a contratação de jogadoras africanas por clubes da WSL são os critérios de Endosso do Órgão Governante (GBE), estabelecidos nas regras de registro da liga. Para obter o visto de trabalho, as jogadoras estrangeiras precisam acumular um número mínimo de pontos em cinco categorias, que incluem o número de convocações para a seleção nacional, participações na Liga dos Campeões Feminina e o ranking dos clubes anteriores. Esses critérios, muitas vezes, penalizam jogadoras de países com menos tradição em competições europeias.
Além disso, os clubes da WSL enfrentam forte concorrência financeira da NWSL, que oferece salários e taxas de transferência mais altos para atrair as melhores africanas. Os recursos de scouting dos clubes ingleses, atualmente, são priorizados para o mercado europeu, o que dificulta a identificação de talentos no continente africano.
Outro fator relevante é a falta de cobertura midiática do futebol feminino na África. A edição deste ano da Wafcon, por exemplo, teve problemas de transmissão: a Confederação Africana de Futebol (CAF) anunciou a Channel 4 como parceira de transmissão no Reino Unido, mas nenhum jogo da fase inicial foi exibido ao vivo, pois o acordo não havia sido formalizado. O torneio também foi adiado apenas 12 dias antes do início previsto em Marrocos, sendo realizado três meses depois.
Lia Walti, capitã da Suíça e recém-contratada pelo Brighton, comentou à BBC Sport que a cobertura global do futebol feminino ainda precisa melhorar. "Acho que você tem que levar o jogo às pessoas. Você meio que tem que forçar as pessoas a assistirem. Senti que foi assim que começou na Inglaterra", disse. "Em muitos outros países, a cobertura é ruim. Não é transmitido, ou, quando é, a forma como filmam o jogo o torna muito pobre. Isso afeta a maneira como você assiste. Você não vê a velocidade, as táticas ou qualquer coisa, e não aproveita o jogo."
O futuro do futebol feminino africano
Apesar dos desafios, a Wafcon 2026 mostrou que o futebol feminino africano está em ascensão. Malawi, Camarões, Argélia e Marrocos garantiram vagas na próxima Copa do Mundo Feminina, com Malawi fazendo sua estreia histórica no torneio. Tabitha Chawinga, capitã do Malawi, celebrou a campanha de sua seleção: "É realmente o melhor. Ninguém deu chance ao Malawi de chegar à final, ninguém deu chance a Camarões. Mas, como vocês viram, assistimos a um futebol fantástico. Houve um futebol incrível de ambos os lados."
Chiamaka Nnadozie, que abriu caminho para africanas na WSL, acredita que sua indicação ao Ballon d'Or teve um "grande impacto" no continente e colocou os holofotes sobre o talento africano. "Temos tantas jogadoras boas e elas só precisam da oportunidade de mostrar o que realmente podem fazer", afirmou à BBC Sport. "Muito em breve, teremos mais números [nas indicações ao Ballon d'Or] da África. Confie em mim, há muitos talentos na África. Algumas jogadoras tiveram a oportunidade de vir para a Europa, mas outras ficaram em casa. Espero que, no futuro, competições maiores venham para a África. A Copa do Mundo Sub-17 é no Marrocos. Isso é uma grande evidência de que estão fazendo um ótimo trabalho lá. É apenas uma questão de tempo. O futebol feminino está crescendo e a África não deve ficar para trás."
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