Cabo Verde faz história no Mundial e enfrenta Argentina
Resumo breve
Cabo Verde tornou-se a menor nação a chegar ao mata-mata da Copa do Mundo, garantindo vaga nas oitavas de final. A seleção das ilhas do Atlântico enfrentará a Argentina, atual campeã, em Miami.
Cabo Verde escreveu um dos capítulos mais emocionantes da história das Copas do Mundo ao se tornar a menor nação a alcançar a fase eliminatória do torneio. A seleção conhecida como Tubarões Azuis, representando um arquipélago de dez ilhas no Oceano Atlântico, garantiu a segunda posição do Grupo H e agora terá pela frente a poderosa Argentina, atual campeã mundial, nas oitavas de final, em Miami, na próxima sexta-feira.
O feito histórico foi confirmado de forma dramática. Após um empate sem gols contra a Arábia Saudita, os jogadores de Cabo Verde se reuniram em volta de um telefone celular no gramado para acompanhar os minutos finais da vitória da Espanha sobre o Uruguai — resultado que selou a classificação dos africanos. "Lágrimas de orgulho e alegria por toda a arquibancada", relatou o comentarista Rob Law, da BBC Radio 5 Live, em Houston. "Houve um momento lindo em que todos se amontoaram em volta dos telefones, esperando o apito final. Quando ele soou, as lágrimas correram no campo e nas arquibancadas. Que momento. O momento da Copa até agora."
Uma campanha de superação
A trajetória de Cabo Verde no Mundial foi marcada por atuações memoráveis. Na estreia, um empate heroico sem gols contra a Espanha, com o goleiro Vozinha, de 40 anos, como grande destaque. Depois, um empate em 2 a 2 com o Uruguai, bicampeão mundial. "É incrível o que eles estão fazendo, não foi apenas um jogo contra a Espanha, são três partidas no mais alto nível", elogiou Juan Mata, ex-campeão mundial pela Espanha, à ITV.
Como uma nação de apenas 525 mil habitantes, que se classificou deixando para trás os Camarões, pentacampeões africanos, conseguiu tamanho feito?
Fator diáspora e plano para chegar à 'grande mesa'
A principal razão por trás do sucesso dos Tubarões Azuis foi a decisão da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) de recrutar jogadores da diáspora do país. Há fortes laços com a antiga potência colonial Portugal, e uma série de secas severas no século passado provocou forte emigração das ilhas. Além disso, a tradição marítima e o envolvimento no comércio naval resultaram em uma população considerável com raízes cabo-verdianas em Roterdã, nos Países Baixos.
Dos 26 convocados para a Copa, 14 nasceram no exterior, sendo seis deles na cidade portuária holandesa. Um desses jogadores, o atacante Dailon Livramento, que na última temporada atuou pelo Casa Pia, da Primeira Liga portuguesa, marcou o gol da vitória crucial sobre Camarões nas eliminatórias, em setembro passado.
"A FCF fez progressos significativos através de paixão, compromisso e um plano técnico claro", afirmou Josina Freitas Fortes, membro do parlamento cabo-verdiano, à BBC Sport Africa. "Os resultados que vemos são em grande parte produto de anos de trabalho consistente, forte crença e pessoas que deram o coração ao projeto."
A contratação do zagueiro Roberto Lopes, nascido em Dublin, via LinkedIn em 2019, é uma história já conhecida. Já o ex-atacante do Manchester United, Bebé, integrou o elenco na Copa Africana de Nações (CAN) de 2023 após representar Portugal no sub-21. "Há uma confiança interna nesta equipe de que somos bons o suficiente para competir com as melhores seleções do mundo", disse Lopes. "Não é algo fabricado do nada. Desde que estou envolvido, e antes disso, há um plano contínuo para colocar Cabo Verde na grande mesa com as grandes nações do futebol mundial."
Estabilidade técnica: 'força, união, resiliência'
Grande parte do mérito pelas atuações de Cabo Verde cabe ao técnico Bubista, ex-internacional que está no comando desde janeiro de 2020. A estabilidade na comissão técnica permitiu que o ex-zagueiro de 56 anos construísse uma equipe compacta e bem treinada, com defesa organizada, meio-campistas técnicos e atacantes talentosos. Na CAN 2023, a seleção surpreendeu Gana e empatou com o Egito, chegando às quartas de final — apenas dez anos após sua estreia no torneio continental.
Embora Vozinha tenha sido decisivo com sete defesas no empate sem gols com a Espanha, a disciplina da equipe ficou evidente: os Tubarões Azuis cometeram apenas uma falta contra os campeões de 2010 — o menor número registrado por uma seleção em uma partida de Copa do Mundo desde 1966. "Sempre treinamos e jogamos como uma unidade, então tudo o que fizemos no jogo não foi a primeira vez que fizemos", explicou o defensor Sidny Lopes Cabral à BBC World Service. "Para nós, é o nosso jogo. É assim que jogamos, é quem somos. Esta é a nossa personalidade como equipe e como defensores."
Na segunda partida do Grupo H, contra o Uruguai, Cabo Verde adotou uma postura mais ofensiva e expansiva, mas também demonstrou determinação ao buscar o empate no segundo tempo. "Mais importante que o resultado é poder mostrar nossa identidade como equipe, nossa força, nossa união e também nossa resiliência", afirmou Bubista.
O treinador foi reconhecido por sua conquista ao levar Cabo Verde à Copa do Mundo, sendo eleito o técnico do ano de 2025 pela Confederação Africana de Futebol (CAF). Ele sempre acreditou no potencial de sua equipe para competir com a elite mundial. "Fizemos muito bem considerando o quão pequeno é nosso país", disse à BBC Sport Africa antes da CAN 2021, quando os Tubarões Azuis chegaram às oitavas de final. "Acho que no futuro estaremos na Copa do Mundo." A previsão ousada se concretizou, e agora Bubista espera que as conquistas de Cabo Verde no torneio expandido inspirem outras zebras ao redor do mundo. "Acredito que o futebol pertence a todos, ou é para todos", declarou.
A recompensa: Argentina no mata-mata
A recompensa de Cabo Verde será enfrentar a Argentina de Lionel Messi em Miami, nas oitavas de final, na sexta-feira. O meio-campista Deroy Duarte, eleito o melhor em campo contra a Arábia Saudita, disse: "Honestamente, é loucura. Sinto que estou em um sonho. Primeiro, vamos comemorar. Estamos muito felizes. Espero que todos os cabo-verdianos também estejam felizes. A partir de amanhã, vamos nos concentrar na próxima partida. É contra a Argentina, não é? Uma partida difícil, mas vamos acreditar. Tudo é possível."
O ex-técnico do Tottenham, Nottingham Forest, Celtic e Austrália, Ange Postecoglou, comentou à ITV: "É uma grande história do que a Copa do Mundo representa. Frequentemente falamos sobre como o futebol toca todas as partes do globo, e é isso que ele pode fazer. Isso só acrescenta à história deles. Jogar contra os atuais campeões. Que grande história tem sido." O ex-defensor do Manchester United e da Inglaterra, Gary Neville, acrescentou: "Acho que aqueles céticos que pensaram que expandir a Copa do Mundo não era a coisa certa podem estar repensando ao ver esses torcedores de Cabo Verde, porque isso é realmente especial. Um país de 500 mil pessoas chegando à fase eliminatória. Vimos o Uruguai, um dos maiores países, sendo eliminado, e então uma das menores equipes conseguindo. Que momento para eles."
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