Andersson revela os segredos do terceiro lugar da Suécia em 1994

Resumo breve
Kennet Andersson recorda a campanha histórica da Suécia no Mundial de 1994, o papel decisivo do treinador Tommy Svensson e a formação do trio de ataque que encantou o mundo. O ex-avançado revela ainda a negociação secreta que fez durante o torneio.
Em 1994, a Suécia surpreendeu o mundo ao conquistar o terceiro lugar no Mundial dos Estados Unidos, uma reviravolta impressionante após a desilusão de 1990, quando a equipa foi eliminada na fase de grupos sem qualquer ponto. Kennet Andersson, um dos protagonistas dessa campanha, recorda em entrevista exclusiva à FIFA os momentos-chave que levaram a Suécia ao pódio, as decisões ousadas do treinador Tommy Svensson e a formação do trio de ataque que ficou na história.
O ponto de viragem: do desaire de 1990 à redenção
Em 1990, a Suécia saiu do Mundial de Itália com três derrotas por 2-1, frente a Brasil, Escócia e Costa Rica. Quatro anos depois, a equipa voltou a encontrar-se em desvantagem por 2-1, desta vez contra os Camarões na estreia. Foi então que Martin Dahlin empatou o jogo, um momento que Andersson considera crucial. "Para mim, o momento que mudou tudo foi quando o Martin empatou para 2-2. Já éramos melhores do que quatro anos antes", afirmou.
O empate quebrou a maldição dos 2-1 e deu à Suécia a confiança necessária para seguir em frente. A partir daí, a equipa cresceu e mostrou a sua verdadeira qualidade.
A genialidade de Tommy Svensson e o trio mágico
O treinador Tommy Svensson, que substituiu Olle Nordin, tomou uma decisão arriscada: adaptou o seu sistema tático para incluir Andersson, Dahlin e Tomas Brolin no ataque. "Ele mudou a forma como jogava. Colocar o Brolin na ala foi arriscado. Mas ele era muito moderno, porque naquela época a maioria dos treinadores tinha um sistema fixo. Ele adaptou a sua forma de jogar aos jogadores que tinha. Foi muito corajoso e muito inteligente", explicou Andersson.
Brolin, inicialmente relutante em jogar como extremo, foi tranquilizado pelo lateral-direito Roland Nilsson, que lhe disse para não se preocupar com a defesa. Assim, Brolin atuou como um "10" livre, ligeiramente aberto. A decisão revelou-se genial: no final do torneio, Andersson marcou cinco golos, Dahlin quatro e Brolin três, sendo este último eleito para a equipa do torneio.
A cumplicidade entre Andersson e Dahlin
Muitos pensaram que a dupla de ataque tinha uma ligação quase telepática, mas a verdade é mais simples: Andersson e Dahlin conheciam-se desde os 15 anos. Jogaram juntos nas seleções jovens, nos sub-21 e até cumpriram o serviço militar juntos. "Conhecíamo-nos muito bem", disse Andersson. Dois dos quatro golos de Dahlin no Mundial surgiram de cruzamentos precisos de Andersson.
Andersson, que passou a temporada 1993-94 emprestado ao Lille, não era apenas um "homem grande" na área. "Não era bom de cabeça no início, mas era rápido por causa do atletismo. Jogava até aberto, quase como um extremo. Tornei-me um verdadeiro '9' mais tarde", recordou.
A mentalidade relaxada e a negociação secreta
A Suécia impressionou também pela sua abordagem descontraída ao torneio. Andersson, em particular, nunca se deixou abalar pela pressão. "Nunca me foquei nos problemas. Essa mentalidade acompanhou-me durante toda a carreira. Nunca pensei demasiado nas coisas. Nunca", afirmou.
Durante o Mundial, Andersson resolveu uma situação pendente: a sua transferência do Mechelen, da Bélgica, para o Caen, de França. O clube francês, impressionado com o seu empréstimo ao Lille, enviou uma delegação secreta a Detroit, base da Suécia. "Isso foi um segredo durante muitos, muitos anos. Mas sim, assinei pelo Caen durante o Mundial. Vieram ao hotel em Detroit. Desci a outro quarto para encontrar o treinador e o médico. Foi o exame médico mais curto que alguma vez tive. Ele verificou os meus reflexos, olhou para a minha garganta, talvez mediu o pulso ou a tensão, e foi isso", contou Andersson com um sorriso.
Essa negociação deu-lhe um impulso extra para os jogos seguintes. Nas meias-finais, frente à Roménia, após a falha de Håkan Mild nos penáltis, Andersson não hesitou em bater o seu. "Pode parecer estranho, mas era um pouco ingénuo. O meu único pensamento era acabar com aquilo. Sabia que ia marcar, por isso só queria bater. Estava 100% seguro. Não estava a pensar na pressão", recordou.
O caminho até ao pódio
Após eliminar a Roménia nos penáltis, a Suécia encontrou o Brasil nas meias-finais. Apesar de terem empatado 1-1 na fase de grupos, desta vez os brasileiros foram superiores e venceram por 1-0. A lesão de Dahlin aos 68 minutos, antes do golo de Romário, foi um golpe duro. "Se olharmos para o jogo, eles foram muito melhores do que nós. Podiam ter marcado quatro ou cinco golos. Tivemos um dia a menos para recuperar e alguns jogadores não estavam a 100%", admitiu Andersson.
Cansados, mas determinados a terminar em beleza, os suecos golearam a Bulgária por 4-0 no jogo de atribuição do terceiro lugar. Andersson marcou mais um golo e conquistou a Bota de Bronze da adidas, atribuída ao terceiro melhor marcador do torneio. "Estávamos muito focados em terminar bem o Mundial. Mesmo que se chegue às meias-finais, pode-se perder os dois últimos jogos e ficar em quarto. Isso é aceitável, mas queríamos terminar da melhor forma", concluiu.
Quatro anos após a desilusão italiana, a Suécia não só se reergueu, como o fez com estilo, inscrevendo o seu nome na história do futebol mundial.
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