O fim do caos nos cantos? A Copa do Mundo mostra um novo padrão

Resumo breve
A Copa do Mundo trouxe uma abordagem mais rigorosa na arbitragem de escanteios, com menos contato e mais proteção ao goleiro. A mudança, liderada por Pierluigi Collina, reduziu o número de gols de cantos e gerou debates sobre se a Premier League seguirá o mesmo caminho.
O Mundial sinalizou o fim do caos nos escanteios? A pergunta ecoa após a intervenção do VAR que anulou um gol da Alemanha contra o Paraguai, em partida válida pela Copa do Mundo. Jonathan Tah pensava ter dado a vitória à Alemanha na prorrogação, mas o vídeo mostrou que Waldemar Anton bloqueou o goleiro Orlando Gill. Uma tática que remete ao Arsenal da última temporada, quando os Gunners marcaram 19 gols de escanteio, um recorde na Premier League.
“Se o gol é ilegal, então o Arsenal não será campeão inglês”, disse Jurgen Klopp, ex-técnico do Liverpool, comentando o lance. “Eles marcaram 60% dos gols assim”, exagerou o alemão sobre os Gunners. Mas o que é fato é que a arbitragem da Copa do Mundo adotou uma postura diferente nos escanteios.
No fim da última temporada europeia, a briga parecia endêmica: jogadores atirados ao chão, até 16 atletas amontoados na pequena área, sufocando o goleiro. A BBC Sport apurou que, nos altos escalões da arbitragem, havia a sensação de que os escanteios haviam se transformado em uma “cena de luta”, algo que “não era futebol de verdade”. Na Copa, porém, o nível de artimanhas diminuiu sensivelmente.
O que a Fifa fez para combater o problema?
As mensagens de Pierluigi Collina, chefe de arbitragem da Fifa, antes do Mundial foram claras: para os técnicos, haveria foco em bloqueios e seguradas; para os árbitros, a ordem era ser rigoroso. Tolerância zero para movimentos fora da bola que impedissem um adversário de chegar à jogada e resultassem em gols. Segurar ainda aconteceria — não é possível erradicar em um esporte de contato —, mas não na mesma proporção. Os árbitros, por exemplo, ainda precisam parar os escanteios para falar com jogadores que se agarram.
No caso dos goleiros, Collina parece esperar uma zona de exclusão dentro da pequena área. A intervenção do VAR para anular o gol da Alemanha pode ter parecido branda para quem assiste à Premier League, mas para Collina foi o exemplo perfeito do que ele vinha incutindo em seus árbitros. Anton ficou em uma posição que obrigava o goleiro a esbarrar nele, mantendo-se firme — um bloqueio deliberado. A Espanha também teve um gol anulado de forma semelhante, com Pau Cubarsi punido por falta no goleiro austríaco Alexander Schlager.
“Pelo menos são consistentes, mas é o extremo oposto”, comentou o ex-meio-campista alemão Thomas Hitzlsperger na BBC One. “Assistimos à Premier League toda semana e isso é tão diferente. Nenhum goleiro está protestando. A Fifa mudou sua abordagem e qualquer contato é a favor do goleiro.”
O impacto nos números
A mudança afetou o valor dos escanteios? As estatísticas sugerem que sim. Na Premier League da última temporada, os gols de escanteio saíram a uma média de 0,49 por partida — quase um a cada dois jogos. A Bundesliga e a Champions League ficaram próximas, com 0,46. Na Copa do Mundo, o índice caiu para 0,34, equiparando-se às outras cinco grandes ligas europeias, que também têm um limite mais baixo para intervenção dentro da área. Ainda assim, é superior aos 0,20 do Catar, há quatro anos.
Como Collina treina os árbitros para a Copa
A atenção aos detalhes de Collina neste Mundial foi exaustiva. Os 51 árbitros e 88 assistentes estão baseados em um centro de treinamento de última geração em Miami, na Flórida. A Fifa contratou um grande grupo de jogadores de nível semiprofissional, que são treinados nos padrões de jogo e nas rotinas de bola parada das seleções nacionais.
Tomemos como exemplo a partida entre França e Marrocos, na quinta-feira. O árbitro Facundo Tello e sua equipe viajaram ao centro de treinamento e passaram por exercícios com duas equipes, que realizaram drills para imitar o estilo de jogo e a abordagem tática dos quarterfinalistas. Onde as equipes posicionam seus jogadores nas jogadas ensaiadas? Para onde fazem os movimentos? Alguém está em posição de bloqueio? Os árbitros recebem feedback sobre as decisões que tomam e levam isso para o jogo.
Claro, isso é muito mais fácil para a Fifa em um formato de torneio, com árbitros em um ambiente de treinamento controlado e intensivo. Também é provavelmente necessário: os oficiais não podem ser obrigados a saber como todas as 48 seleções jogam. Collina acredita que é extremamente importante usar cenários reais, não apenas dossiês e diagramas. Seus árbitros podem ter uma noção tangível de como situações-chave da partida podem se desenrolar.
Os árbitros da Premier League recebem um detalhamento de como as equipes jogam, mas, claro, as veem em ação toda semana — pessoalmente ou na televisão.
A Premier League pode replicar o plano de Collina?
Em fevereiro, após um jogo particularmente áspero contra o Manchester United, o técnico do Everton, David Moyes, disse que “os árbitros realmente não querem se envolver nisso”. É uma via de duas mãos, claro. Técnicos e jogadores têm sua própria responsabilidade pela forma como se comportam e pelas táticas que usam.
O que a Premier League pode fazer? Ela prometeu um “reconhecimento aprimorado de ações de segurar claras”. Mas a Copa do Mundo criou expectativas irreais? A BBC Sport entende que os árbitros da Premier League não adotarão a mesma linha dura. Os gols da Alemanha e da Espanha ainda não seriam anulados se marcados na Premier League. A fisicalidade é importante para o futebol inglês, mas ainda há a sensação entre os oficiais de que o que aconteceu na última temporada não pode continuar.
“Há uma linha do meio onde eles podem gerenciar um pouco melhor”, disse o ex-zagueiro do Chelsea, Cesar Azpilicueta, à BBC One. “Na Inglaterra, especialmente, há mais contato — você está acostumado. Há algo no meio onde todos podem se sentir um pouco mais felizes.”
Os torcedores são sempre céticos em relação a qualquer nova iniciativa no início de uma temporada, muitos pensando que durará algumas semanas antes de desaparecer. Collina acredita que a única maneira de obter resultados é ser rigoroso — expor a situação aos técnicos e estar pronto para aplicar as regras quando necessário. Mas com apenas um pênalti de VAR por segurar — dado pelo árbitro da Premier League Jarred Gillett quando a Croácia enfrentou Portugal —, isso foi realmente testado?
Os técnicos na Copa estão reagindo aos avisos de Collina e suavizando suas táticas? Ou simplesmente não estão dando aos escanteios o mesmo foco que os técnicos de clubes? Os árbitros da Premier League não podem impor uma série de pênaltis nas primeiras semanas da temporada, pois isso seria insustentável. O contra-argumento é que isso mudaria o comportamento, mas é improvável que a narrativa da mídia favorecesse os árbitros.
A abordagem de Collina talvez seja adequada para um torneio de 104 jogos, no qual a maioria das equipes joga apenas cerca de quatro partidas. É uma proposta muito diferente para uma campanha doméstica completa. Os técnicos sempre buscarão o ganho marginal — maneiras de ultrapassar os limites para marcar um gol crucial, ajustando suas rotinas semana a semana. Os árbitros da Premier League precisam encontrar uma maneira de reiniciar, respeitando a natureza física do jogo. Não é fácil.
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