Seleção do Haiti joga pela paz em meio à violência de gangues

Resumo breve
O Haiti se prepara para sua segunda participação na Copa do Mundo, em meio a uma crise humanitária e violência de gangues.
Por dois dias, a violência cessou. A chegada do Brasil, então campeão mundial, para um amistoso no Haiti em 2004 paralisou a capital Porto Príncipe. Milhares de haitianos, vestindo amarelo e verde e agitando bandeiras brasileiras, lotaram as ruas e subiram em árvores para ver de perto ídolos como Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos. O jornalista haitiano Pierre Richard Midy lembra que amigos estrangeiros perguntavam: 'Tem certeza de que os brasileiros estão jogando no Haiti? Parece que estão em casa.'
Com a única participação do Haiti em Copas do Mundo tendo sido em 1974, os torcedores há muito adotaram o Brasil como sua seleção favorita no cenário global. Essa paixão se intensificou nas últimas décadas devido ao papel fundamental do Brasil em missões de paz, ajuda humanitária e acolhimento de migrantes haitianos. O amistoso, organizado pela ONU, terminou com uma derrota de 6 a 0 para o Haiti, mas seu significado foi muito além do placar. Midy recorda 'uma atmosfera de paz' e que as gangues pareciam 'prontas para virar a página e cessar fogo por dois dias'.
Um país sitiado, uma seleção dispersa
Em 2021, o país foi jogado no caos após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, que nunca foi substituído, deixando um vácuo de poder preenchido por gangues. Segundo a Anistia Internacional, 5.600 pessoas foram mortas no Haiti somente em 2024, em uma população estimada em 11,5 milhões. A violência é tamanha que a seleção nacional não joga em casa há cinco anos. Desde então, manda seus jogos 'em casa' a 800 quilômetros de distância, em Curaçao.
O técnico francês Sébastien Migné, que foi auxiliar de Camarões na Copa de 2022, nunca pisou em solo haitiano. Convocou o volante Woodensky Pierre, único jogador que atua no Haiti, baseando-se apenas em vídeos online, já que não podia vê-lo pessoalmente. Woodensky, como é conhecido, foi criado na favela de Cité Soleil e joga pelo Violette AC, um dos maiores clubes do país, cujo estádio, o Sylvio Cator, foi tomado por gangues há dois anos. O Violette tornou-se campeão nacional um mês antes da Copa, mas o início da final foi atrasado por tiros. 'Este jogador é de um dos bairros mais perigosos do Haiti. Joga por instinto, porque aprendeu cedo que hesitar custa tudo', diz Midy. 'Ele é precioso para o povo haitiano porque achamos que é ele quem diz: 'não estamos mortos, temos talento aqui'. Ele sempre diz: 'não estou apenas carregando a bola, estou carregando as esperanças de onde venho'.'
Uma seleção da diáspora
Dos 26 convocados, 16 nasceram no exterior, espalhados por cinco países, representando 25 clubes de 15 nações. O artilheiro histórico Duckens Nazon, nascido na França, é um dos símbolos dessa diáspora. Com 44 gols em 80 jogos, é chamado de 'chuchu do Haiti', um termo francês de carinho. 'O povo haitiano vê nele um exemplo de alguém que se sente mais haitiano do que qualquer pessoa nascida e criada no Haiti', afirma Midy.
Outro caso emblemático é o zagueiro Hannes Delcroix, ex-Burnley, nascido no Haiti e adotado por uma família belga aos dois anos. Ele nunca mais voltou ao país e só recentemente restabeleceu contato com a mãe e as irmãs. 'Nunca as vi pessoalmente, mas pelo telefone ligamos de vez em quando', conta. 'É uma sensação estranha no começo, porque você não tem nenhum vínculo. Acho que só queria saber se ela está bem, saudável, se todos estão seguros.' Delcroix, que jogou uma vez pela Bélgica em 2020, optou por defender o Haiti em 2025. 'Você chega a um ponto em que se pergunta: o que você quer agora e por qual país quer jogar? Para mim, a resposta foi o Haiti.'
Nazon espera que o exemplo de Woodensky e de toda a equipe deixe um legado que inspire paz. 'É o que tentamos compartilhar com a nova geração', diz. 'Você não é obrigado a pegar em armas. Não é obrigado a se juntar a gangues ou a traficar ou fumar drogas. Há muitas maneiras de sair da luta.'
Futebol como trégua e esperança
A classificação para a Copa foi obtida em 18 de novembro, data simbólica que marca a revolta de escravos que derrubou o domínio colonial de Napoleão na Batalha de Vertières, em 1803. A seleção planejava usar uma camisa com a imagem da batalha, mas foi forçada a mudar o design dias antes do torneio, após a Fifa considerar que violava as regras que proíbem mensagens políticas, religiosas ou pessoais nos uniformes.
Os torcedores no Haiti, que sofrem com apagões crônicos, têm encontrado maneiras criativas de assistir aos jogos. Midy explica que, em Copas anteriores, jovens juntavam recursos para alugar ou comprar pequenos geradores ou criavam suas próprias fan zones, enquanto famílias com sistemas de energia independente abriam suas casas para vizinhos. 'Este ano, porém, a empolgação atingiu outro nível', diz. 'Em bairros populares, organizações e grupos locais estão distribuindo kits com televisores e sistemas de energia solar para ajudar os moradores a acompanhar o torneio.'
A diáspora haitiana, estimada em quase dois milhões de pessoas, também tem dado apoio. No amistoso contra o Peru em Miami, na semana passada, a comunidade haitiana do sul da Flórida lotou o estádio. O mesmo se espera em Boston, onde o Haiti estreia contra a Escócia no sábado (2h de Brasília no domingo) e que abriga uma das maiores comunidades haitianas dos EUA.
Para Nazon, a magnitude de estar em uma Copa só vai se concretizar quando a bola rolar. 'Acho que ainda não percebi, e falo com muitos companheiros, e eles sentem o mesmo. O ponto em que vamos realmente perceber, acho que vai ser quando o primeiro jogo começar. 'Pessoal, estamos na Copa do Mundo agora!'
O segundo jogo será contra o Brasil. No passado, muitos haitianos torciam pela seleção brasileira, mas Nazon diz que a seleção nacional merece total apoio. 'É muito louco que no seu país antes houvesse mais apoio a outro país. Eles não tinham nada a que se agarrar e dizer 'tenho orgulho' ou 'tenho minha seleção'. Mas agora eles têm uma seleção que joga a Copa do Mundo, então devem se orgulhar. Podem gostar do Brasil, podem gostar de outras equipes, mas só apoiem a nós.'
E com esse apoio vem a esperança de que o futebol possa, mais uma vez, ser um interruptor da violência. 'Todos os líderes de gangues são amantes do futebol', diz Midy. 'Após a classificação, vi vídeos de líderes de gangues comemorando como todos nas ruas, com música.' Nazon lembra cenas semelhantes após a semifinal da Copa Ouro da Concacaf em 2019. 'Nos mostraram vídeos. Foi louco. Nunca vi isso na vida. Tantas pessoas na rua – gangues e civis juntos – apenas aproveitando o momento. Com certeza durante a Copa isso vai acontecer. Mas queremos trazer esse espírito e esse ambiente para sempre, não apenas por um, dois ou três jogos.'
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